quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Conheça a realidade das escolas na cidade da prefeita ostentação !

Prefeita prometeu cuidar da educação, mas fez o contrário, fechou escola e deixou faltar merenda

Entrei na casa escura e abafada e fui recebido por uma senhora que com voz baixa me explicava a situação. Tudo ali estava errado. O ambiente era escuro, abafado, úmido e exalava um odor que não me permitiria permanecer por muito tempo sem ficar incomodado. Não havia tranquilidade ali. Animais e crianças da vizinhança estavam sempre prontas a promoverem barulhos e desviar a atenção. A casa era antiga, limpa até, como se as pessoas que trabalhassem ali, fizessem o máximo para melhorar a situação, mas era em vão, pois o esforço maior não deveria vir necessariamente deles.
A Escola Municipal de Educação Básica Dr. Antônio Dino fica localizada no povoado Oscar, no município de Bom Jardim (MA), cuja prefeita, Lidiane Leite, está foragida, após mandado de prisão da Polícia Federal. Distante 20 km da sede cidade, chegamos lá por uma estrada que está sendo asfaltada. Metade do serviço está concluído, mas isso não significa que o trajeto é tranquilo. Pelo contrário. O desafio de chegar ao local deve ter estimulado a construção da estrada.
Na entrada do povoado perguntamos onde ficava a escola do povoado. Um homem com seus 30 e poucos anos indicou o caminho e perguntei como estava a situação. “Não está muito boa não. Mas é o que tem. A casa onde funcionava antes foi derrubada, pois estava para cair na cabeça das crianças”, disse.
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A palavra ‘casa' ficou na minha cabeça. Como poderia ser uma escola que funciona numa casa? Não que me surpreendesse o inusitado local, já vi lugares piores no Piauí, mas queria entender como seria aquela dinâmica.
UM CAMINHO DIFÍCIL
Segui a indicação do homem. Dirigi alguns metros pela via que corta o povoado, e deveria entrar à direita no posto de saúde, que estava fechado. Quando vi a rua me questionei como iria passar ali. Apesar de estar em um carro tracionado, me preocupei com a falta de receptividade da estreita rua para com o veículo. Além disso, animais, crianças brincando, canos de água, pedras, mato, areia e plantas eram meus obstáculos. Buracos e desníveis na rua piorava a situação. Segui mesmo com medo. Crianças em pequenas bicicletas seguiam ao meu lado para me mostrar o caminho.
Dobrei à esquerda onde um cajueiro marcava uma esquina imaginária e logo vi uma casa velha, com muro apenas na frente e rodeada por árvores. Desci do carro sem acreditar que aquilo era uma escola. Mas era. Apesar da minha avaliação preconceituosa sobre o visual do local, só depois percebi o quanto aquele lugar era importante para a comunidade. Apesar do seu estado, era o único meio que os pais poderiam confiar a educação dos seus filhos. Era para lá que eles enviavam seus filhos todos os dias com a esperança de um futuro melhor. Aquele lugar foi o máximo que os moradores do povoado conseguiram depois de tantas reivindicações ao poder público.
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A diretora da escola, Maria da Graças, um senhora que dedicou praticamente toda sua vida à educação dos moradores da comunidade, não escondia sua decepção com a situação. Ela me explicou que ali estudavam 96 crianças divididas em dois turnos, do 1º ao 9º ano do ensino fundamental.
IMPRÓPRIO, MAS NECESSÁRIO
Numa pequena varanda em frete da casa era a ‘recepção’. A pequena cobertura de telhas oferecia abrigo a um senhor sentado numa cadeira com uma pequena mesa. Ele era o vigia e controlava os alunos que ali estudavam.
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A diretora me levou ao primeiro cômodo. O que era em outra oportunidade uma sala, funcionava como secretaria e biblioteca da escola. Livros organizados numa estante era a biblioteca. Os papeis da secretaria ficavam em armários encostados em outra parede. No cômodo ao lado. Um rapaz digitava os deveres escolares dos alunos em um computador. Ao lado dele ficava estocado os únicos alimentos que havia: arroz, vinagre e milho para fazer mingau.
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ALUNOS SEM MERENDA ESCOLAR
Segundo a diretora, a distribuição e alimentos para fazer a merenda escolar era muito deficiente. A prefeitura passava meses sem deixar nada. Quando deixava, era insuficiente. Nos últimos dias a escola não estava fornecendo alimentação por causa disso.
Voltamos para o primeiro cômodo e em seguida já era uma sala de aula. A professora havia passado uma atividade no quadro e os alunos copiavam. Curiosos com nossa presença, logo esqueceram a atividade para nos observar. Tentamos ao máximo não chamar a atenção, mas era impossível, até porque para seguir ao próximo local, era preciso passar pelo meio deles. Eram 12 crianças ali, de três séries diferentes.
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No cômodo ao lado funcionavam os banheiros. Escuros, mas limpos. Eles eram um orgulho, pois existiam, ao contrário de outros lugares onde a escola funcionou, os alunos precisavam usar os banheiros dos vizinhos, ou lugares ‘alternativos’.
Voltamos à sala de aula. Atravessamos a sala de aula. Chegamos à cozinha. Parecia que há muito tempo nada era preparado ali. Produtos de limpeza estocados em um canto, a pia, a mesa e o fogão, apenas. Do lado, funcionava outra sala de aula, com alunos ainda pequenos, que também dividiam várias séries na mesma sala. Com olhares curiosos e desanimados, tentava entender o que acontecia. Para eles, falta de merenda era normal, para nós, um crime.
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UM SISTEMA INADMISSÍVEL
A casa acabava ali. Havia apenas duas salas. Questionei como 96 alunos estudavam ali. A diretora explicou que além de várias séries em uma única turma, outro espaço era utilizado para atender outra turma. No espaço funcionou um bar, e agora recebia uma sala de aula. O professor estava doente e naquele dia não houve aula. Mostraram-nos os banheiros. Duas estruturas de palha, que estavam destruídas. Motivo de risada irônica dos moradores do povoado. Um absurdo para nós.
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“Nós sentimos frustrados. São muitos anos dedicados à educação e hoje temos eu conviver com isso. Fazemos de tudo para manter a escola funcionamento. Mas é isso ou nada. já pedimos tanto, mas nada é feito”, disse a diretora com emoção.
POUCO RESOLVERIA MUITO
Perguntei se R$ 15 milhões era suficiente para resolver o problema da educação na comunidade. A diretora riu e disse que na verdade só precisava de um lugar adequado para os alunos e merenda de qualidade, que o resto continuariam a fazer com muito amor.
Pelo menos R$ 15 milhões e o que é apurado de ter sido desviado pela prefeita Lidiane Leite. Valores estes que deveriam ser utilizados em reformas e construções de escolas. Os valores foram pagos às empresas, mas nenhuma escola foi construída ou reformada. Milhões foram desviados da merenda escolar. Um verdadeiro esquema pretendia comprar alimentos da agricultura familiar. O dinheiro sumiu, e como se percebe, não há merenda nas escolas do município há anos.
Eu olhava aquelas crianças que me mostravam a situação da escola e riam. Elas sabiam dos problemas e das péssimas condições que eram obrigadas a estudar, mas talvez não entendessem a fundo como funciona a corrupção no nosso país, que afeta diretamente a educação, uma das formas de libertar a população de tantas correntes que as mantém reféns do vicioso sistema político.
Despedi-me. Senti naquelas pessoas a necessidade de uma solução. Os seus olhos me cobravam algo, pediam de mim uma resposta. Percebi que era mais responsável que imaginava. Os problemas estão por toda a parte. Como disse no começo, isso é só o que mais acontece no Piauí, até pior.
Como muito se diz, dinheiro da merenda escolar da educação é sagrado. A prefeita Lidiane Leita teve a prisão pedida por pecar várias vezes. Que a justiça seja feita, pelo futuro destas crianças.
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VEJA COMO ESTÁ A SITUAÇÃO DE OUTRAS ESCOLAS
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